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Número 25 - Diciembre 2009

OFICINA MEMÓRIA VIVA: INTERVENÇÕES EM DIFERENTES ESPAÇOS

Rita Duarte Amaral - Patricia Geribello Ferreira Cabral
rita@oficinamemoriaviva.com.br - patrícia@oficinamemoriaviva.com.br

Oficina Memória Viva; PUC/SP – Núcleo de Estudos e Pesquisa do Envelhecimento NEPE – São Paulo – Brasil

Palavras Chaves: memória autobiográfica, envelhecimento, oficina.

A Oficina Memória Viva é uma iniciativa construída a partir das necessidades que o novo cenário sócio-demográfico nos impõe. Como todos os países da América Latina, o Brasil é um país que está envelhecendo rapidamente e esse fato é cada vez mais notado nas nossas relações, na mídia e na sociedade em geral, portanto iniciativas e empreendimentos que atuem com o envelhecimento em diferentes espaços podem nos trazer dados para projetos futuros e se tornam bastante interessantes.

A Oficina Memória Viva iniciou suas atividades em 2003 a partir do curso de formação Oficina Memória Autobiográfica: teoria e prática ministrado pela profª Vera Brandão, que deu os subsídios teórico-práticos para a execução das oficinas com idosos em diferentes espaços, dando seqüência ao projeto Memória e Cultura, por ela iniciado em 1994.

Entre 2003 e 2004 a oficina aconteceu no Pateo do Collegio, que marca com exatidão o local de fundação da cidade de São Paulo, hoje a mais populosa do Brasil. Foi implantado para atender aos objetivos de realização de atividades culturais do Centro Loyola de Fé e Cultura e a integração da comunidade idosa com e nesse espaço público, que também abriga o Museu de Arte Sacra dos Jesuítas, patrimônios históricos da cidade. O desdobramento desse projeto aconteceu na cidade do Embu das Artes, situada a 30 quilômetros da capital, e se desenvolveu a partir do Largo dos Jesuítas, onde também se localiza o Museu de Arte Sacra.

No ano de 2005 o projeto foi implantado em um centro de convivência para idosos na cidade de Barueri, situada a 40 quilômetros da capital. O centro de convivências chamado Grupo Vida – Barueri é uma entidade civil sem fins lucrativos, que presta serviços aos residentes neste município, com idade igual ou maior que 60 anos. O Grupo Vida iniciou suas atividades em outubro de 1975 com 56 idosos, no centro de Barueri e em 2006, contava com 1.836 associados, em suas três unidades. A Oficina Memória Viva foi implantada nas unidades da Sede e do Jardim Mutinga, que se situa na região periférica da cidade.

A partir de 2006 foram realizadas intervenções em instituições asilares e se partiu da premissa que o trabalho com memória abriria a possibilidade de criar, dentro de uma Instituição de Longa Permanência, um espaço de inclusão e revalorização das histórias de vida dos idosos.

Em 2009 foi realizada uma intervenção no ambiente corporativo em uma empresa de engenharia consultiva que comemorou 30 anos de existência.

Desde 2003 também foram realizadas algumas intervenções pontuais em espaços diferenciados como o Sesc, Encontros de Idosos em Penedo, Conservatória. Denominamos estas formas de intervenção como Encontros Autobiográficos. O diferencial é justamente ser um trabalho pontual e não processual como a Oficina.

É importante ressaltar que a denominação Oficina Memória Viva foi construída ao longo de cinco anos de trabalho em parceria de Cabral, psicóloga e Amaral, pedagoga.

O objetivo das oficinas foi criar um espaço de inclusão e valorização através da escuta, reflexão e troca de experiências entre os participantes. Construir novos significados para a trajetória de vida, ampliar os laços sociais e a auto-estima. Além de ressaltar a importância da memória como vetor de integração entre os participantes e entre as instituições em que estão inseridos seja ela uma empresa, uma ILPI ou um Centro de Convivências. Isso se dá a partir do momento que vivenciando a oficina possibilita-se a reflexão sobre a trajetória de vida, reconstruída com a perspectiva da identidade atual, ressignificando-a e inserindo-a na história coletiva no tempo e espaço das culturas de origem e destino, resgatando a memória social das cidades, dos locais em que estão inseridos pelo olhar único de cada indivíduo.

"Nunca estamos sós", diz Halbwachs (1990), reforçando sua tese de que toda lembrança, mesmo tida pelo indivíduo como única, prende-se de alguma maneira ao contexto social mais amplo. Lembrar é reconstruir o passado a partir dos quadros sociais do presente; é uma lembrança consciente. Ela também se apóia no tempo socialmente referido - a memória está no grupo - e o trabalho de reconstrução do passado só pode ser realizado nesse contexto. (Brandão, 2002:183).

Esta afirmação aponta também para a importância do grupo, fator relevante para os participantes da oficina, pela oportunidade do encontro e o (re) descobrimento de si e do outro, e por sua força latente, que vai se desenvolvendo a partir dos encontros, estabelecendo um forte laço afetivo entre eles.

Como idéia principal e guia nos propusemos a resgatar a história da cidade, da empresa ou a própria história afetiva, não as histórias oficiais ou as anamneses, nem mesmo as histórias jornalísticas, reais, mas a história vivida, experimentada, criada através das palavras de seus habitantes/participantes. Partimos da idéia que é possível transformar cada indivíduo em narrador-participante, memória viva. Esse trabalho de rememoração, além de prazeroso, pode aproximar as pessoas. Afirma Brandão (2005):

Ao compartilhar lembranças, os tempos individuais se cruzam, formando um outro tempo coletivo, tempo presente no grupo. Este compartilhar dá lugar a uma nova solidariedade que propicia a cada um e ao grupo como um todo, a segurança necessária para os relatos em um espaço de valorização e compreensão. Assim, a indiferença, marca das grandes cidades, desaparece dando lugar a uma nova trama de relações... Assim os grupos, formados aleatoriamente, tecem uma nova trama de (re) significados. (2005:161).

Para tanto utilizamos a memória como método de resgate da história afetiva vivida, através da técnica Oficina de Memória Autobiográfica. As Oficinas no Pateo e no Centro de Convivência foram compostas por 10 encontros semanais com o mesmo grupo de participantes, com 2 horas de duração e grupos de até 15 participantes. Nas Instituições de Longa Permanência o tempo de duração e o numero de participantes foi menor. Na empresa trabalhamos em dois momentos, inicialmente uma intervenção individual e depois uma intervenção grupal, além dos já citados Encontros Autobiográficos que podem acontecer em um único momento com um numero maior de participantes. Pela nossa experiência entre 15 e 20 participantes é o tamanho de grupo ideal, onde todos podem se manifestar

Cada instituição e cada espaço têm suas peculiaridades, e utilizamos a técnica da memória autobiográfica de acordo com a demanda do grupo e da instituição. A memória autobiográfica permite essa flexibilidade onde podemos criar e adaptar as necessidades do grupo. Nos espaços onde pudemos trabalhar por um tempo mais longo, o registro dessas lembranças se transformou em um caderno de memórias produzido pelos próprios narradores, que foi entregue a cada participante ao final do processo, tornando-os produtores culturais, partindo do princípio que um trabalho documental é um produto cultural. Queremos ressaltar que nem sempre temos um caderno, podemos construir um produto imagético, um livro da empresa ou mesmo um desenho coletivo que represente aquele momento, onde os participantes se sintam pertencendo ao grupo e ao registro construído.

Finalmente, mas não menos importante, o objetivo da Oficina é promover o envelhecimento ativo e a inclusão social, através do compromisso de participação e a descoberta, por meio das reflexões, de novos projetos de vida. Como, por exemplo, alguns idosos analfabetos que se interessaram pelo processo de alfabetização para adultos no Centro de Convivência o que mostra que mesmo aqueles que, nunca tiveram a oportunidade de acesso ao mundo letrado o registro da narrativa pela palavra escrita, levou a descoberta de um mundo novo, repleto de desafios. Os estudos gerontológicos evidenciam que as atividades e projetos que motivem o idoso à participação têm um caráter preventivo, focando a manutenção da autonomia, pois, envelhecer é um direito do cidadão, e envelhecer dignamente, um dever da sociedade. (Paz, 2004:241)

"A experiência nos mostra que, a partir da memória autobiográfica nas histórias narradas, e muitas vezes escritas, podemos, usando a linguagem, refletir, compreender, reorganizar e ressignificar essas trajetórias e projetos de vida-trabalho, nossas e de outros, articulando as memórias individuais e coletiva, dando-lhes um sentido-significado. Essa história, que é nossa e dos grupos aos quais pertencemos, diz-nos quem somos, auxilia e fortalece nossa identidade, ilumina nosso caminho na busca de sentidos para o nosso ser-estar no mundo". (Brandão, 2008: 15)

Dentro do espaço corporativo essa articulação entre as memórias individuais e coletivas é ampliada para as relações do trabalho. O grupo de funcionários tem a oportunidade de compartilhar as memórias do trabalho em um espaço diferente do seu cotidiano. Nas empresas fala-se muito de capital humano que é valorizado a partir do momento em que damos voz e significado à palavra dos funcionários. Nesse espaço as pessoas podem ao compartilhar as lembranças do trabalho refletir sobre o lugar construído.

Na empresa em que atuamos foram realizadas entrevistas individuais e em seguida oficinas. O objetivo específico dessa oficina foi conhecer a empresa e a história da mesma pela voz dos funcionários. Foi uma construção feita de várias peças, onde cada um teve um papel e a memória coletiva do grupo trouxe situações e experiências peculiares, surpreendentes e enriquecedoras. Vale ressaltar a ousadia da empresa e seus funcionários ao aceitar esse trabalho inovador.

Nas instituições asilares entra-se em um espaço complexo que tem o compromisso de acolher, proporcionar um lar e cuidar, para que os velhos se sintam pertencentes a estes lugares e amparados diante de suas necessidades. No entanto, o institucionalizado vive em espaço limitado, realizando as mesmas atividades com as mesmas pessoas, em horários determinados, atendendo às exigências institucionais e não as pessoais, sofrendo assim a restrição de seus desejos de autonomia. Convivem com pessoas desconhecidas, de hábitos e maneiras de viver das mais diversas. Passa a existir um rompimento do padrão de vida anterior e se oferece a este sujeito uma situação de compartilhamento fechado, afastando-o do convívio social e familiar. Camarano (2007:182) ressalta que o ingresso numa instituição "significa uma ruptura com uma comunidade e a adoção de uma outra". Geralmente, esta ruptura se dá nos vínculos afetivos (familiares), e os novos vínculos são com pessoas, em principio, desconhecidas, sem nenhum laço afetivo.

As oficinas Conversando com residentes de Instituições de Longa Permanência para Idosos fora realizadas em instituições asilares distintas situadas na Grande São Paulo e tiveram a participação de 25 idosos em quatro grupos diferentes. Os critérios de elegibilidade do grupo foram lucidez e preservação auditiva.

Inicialmente promoveu-se a aproximação das mediadoras com os residentes para informá-los e convidá-los a participar do processo da Oficina. Com a sua anuência iniciou-se o trabalho tendo como eixo temas adequados às características grupais. Foram previstos oito encontros semanais e cada oficina teve a duração de cerca de duas horas.

Constatamos que um dos principais motivos que levam as pessoas a participarem da oficina é a palavra memória, em função do estabelecimento da relação entre perda da memória e envelhecimento. Com o aumento da longevidade e o desenvolvimento das ciências médicas, patologias como o mal Alzheimer, entre outras, que se iniciam com os esquecimentos, são cada vez mais estudadas e seus resultados largamente divulgados.

No entanto, nosso trabalho se alinha entre as abordagens de caráter preventivo, lembrando que "para a memória normal se aplica o princípio de que a" função faz o órgão". As pessoas que cultivam sua memória, principalmente praticando-a por meio da leitura consciente, mantêm sua mente funcionando o melhor possível até o final." (Izquierdo, 2004:95).

Zarebski (2005) ressalta que "todos, a cualquier edad, soñamos despiertos" O que reforça que a oficina de memoria autobiográfica independe da idade, a conversa evocativa aproxima e quebra barreiras sociais, etárias. Pela nossa experiência os idosos redescobrem-se e podem resgatar projetos de vida e os mais jovens (como os funcionários da empresa) podem resgatar a própria identidade no contexto mais amplo da corporação. Zarebski continua dizendo que no envelhecimento normal "esse ensueño diurno se nutre em gran parte del pasado, pero de um modo placentero, no nostalgioso, que reconectándolo com sus afectos, le permiten ir reescribiendo su historia y sostener así su identidad"(2005:27)

De maneira geral, nas oficinas utilizamos recursos como leituras, reflexões e dinâmicas de grupo, a partir de material adequado e pré-selecionado pelas coordenadoras. Esse material é usado como estímulo para iniciar as conversas evocativas. Segundo Izquierdo, "de longe, e por enorme diferença, o melhor exercício para preservar e melhorar a memória é a prática da leitura." (2004:85, grifo do autor).

Os encontros são planejados de modo a permitir a expressão espontânea de todos os seus participantes; para tanto, a função de controlar o tempo era exercida por uma das coordenadoras. E como "toda a memória é adquirida num certo estado emocional" (Izquierdo, 2005:36) quando trabalhamos na perspectiva da evocação de memórias autobiográfica, a continência e respeito pelas falas, e até mesmo os silêncios e esquecimentos dos participantes se fazem fundamental. No decorrer do processo, com o aprofundamento dos vínculos, percebemos que essa função de continência e respeito pelo outro foi se desenvolvendo no próprio grupo.

Utilizam-se os conceitos de ressignificação, no sentido de atualização da identidade, e de "memória afetiva positiva na perspectiva do desejo - não focando no que não foi feito, e sim no que posso e quero fazer." (Brandão, 2002:186)

Como técnica tem-se mostrado eficiente, pois dá voz e visibilidade aos sujeitos envolvidos e, ao trabalhar a atenção, a síntese e a conclusão, também atua nas funções cognitivas. Os resultados apontam que as situações vividas e compartilhadas podem facilitar a formação de laços afetivos entre os participantes e entre eles e as instituições ao favorecer a descoberta de potencialidades. Foram registradas melhoras nas funções cognitivas, no vocabulário e sentimentos de melhora na qualidade de vida, segundo avaliação subjetiva feita pelos idosos e pelas pesquisadoras.

Bibliografia:

AMARAL, R.; BRANDÃO, V.; CABRAL, P. (2008)- Oficina de Memória Autobiográfica Comversando com Idosos: O Registro das Memórias Vivas - Chile, Red Latinoamericana de Gerontología (www.gerontologia.org)

BRANDÃO, Vera M.T. (2002) Oficina de Memória – Teoria e Prática: relato sobre a construção de um projeto. Revista Kairós Gerontologia, 5(2):181-195, São Paulo, EDUC.

BRANDÃO, Vera M. T. (2005) – Memória autobiográfica - reflexões IN:CORTÊ, B., MERCADANTE, E., ARCURI, A. (orgs) – Velhice, envelhecimento, complex(idade). São Paulo: Vetor. pp 155-182.

BRANDÃO, Vera M. T. (2008) Labirintos da memória:Quem sou? São Paulo – Ed. Paulus.

CAMARANO, Ana A.(2007) "Instituições de longa permanência e outras modalidades de arranjos domiciliares para idosos" In NÉRI, A. L. (org.), Idosos no Brasil Vivencias, desafios e expectativas na terceira idade São Paulo: Edições SESCSP.

HALBWACHS, M. (1990) "A memória coletiva". In Revista dos Tribunais. São Paulo, Revista dos Tribunais/Vértice,.

IZQUIERDO, I. (2004)– Questões sobre a memória – Rio Grande do Sul, UNISINOS,.

IZQUIERDO, I. (2005) – A arte de esquecer. Cérebro, memória e esquecimento. Rio de Janeiro, Vieira e Lent,.

PAZ, Serafim F. (2004) – "Movimento Social: participação dos idosos" in PY, L.(et al.) Tempo de envelhecer – percursos e dimensões psicossociais – Rio de Janeiro: Nau Editora,.

ZAREBSKI, G. (2005) – Hacia um buen envejecer – Buenos Aires – Ed. Universidad Maimónides.

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